Pare um instante e faça uma reflexão honesta: você precisou recorrer a algum remédio para dormir ou para acordar nos últimos tempos? Teve que aumentar as doses de café para dar conta do recado ou começou a sentir que precisava de estimulantes para ter energia e disposição no trabalho? Abaixo o relato de uma mulher que vive o que muitas também vivenciam… 

Se a resposta for sim, saiba que o seu e-mail e o seu WhatsApp não são os únicos canais que estão recebendo notificações. O seu corpo também está enviando mensagens: uma dor nas costas, um peso nos ombros, uma pontada na cabeça ou aquele cansaço incômodo nos olhos.

Se você ama o que faz e quer continuar exercendo sua profissão com saúde, ou se ainda está em busca do seu lugar no mercado para colocar seus talentos a serviço do mundo, nós precisamos conversar urgentemente sobre produtividade sustentável. É curioso como pensamos em um planeta sustentável, leis sustentáveis e relacionamentos sustentáveis, mas raramente questionamos a nossa própria produção. O estilo de vida que você leva hoje é realmente duradouro?

O Dia em que a Máscara da “Mulher-Maravilha” Caiu

Muitas mulheres por muito tempo, acabam acreditando que o tempo existia apenas para trabalhar. Eu achava que a minha dedicação extrema nunca traria consequências. No entanto, as necessidades do nosso corpo mudam com o passar dos anos e, muitas vezes, não percebemos isso porque estamos ocupados demais, distraídos demais ou simplesmente operando no piloto automático.

Pior do que estar distraído é perceber que há algo errado e escolher ignorar. Nós podemos fugir do que sentimos por um tempo — nos escondendo atrás de filtros nas redes sociais, fechando a câmera nas reuniões ou nos isolando de amigos e familiares —, mas chega um momento em que se torna impossível fugir de si mesmo. Como bem cantava Renato Russo, “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”.

Tenho guardada uma foto que foi tirada exatamente quatro dias antes de eu ter um apagão ao vivo enquanto apresentava a previsão do tempo em um telejornal matinal. Quatro dias antes de viver um colapso e receber o diagnóstico de Síndrome de Burnout — o esgotamento profissional que me forçou a acordar de um modelo de trabalho completamente insustentável.

O que estava por trás daquele sorriso na foto?

  • Taquicardia e falta de ar;

  • Bruxismo e dores musculares (pescoço travado);

  • Problemas hormonais, de pele, estômago e intestino;

  • Crises nervosas e, no limite do esgotamento, ideias suicidas.

O mais doloroso é saber que não estou sozinha: hoje, são mais de 20 milhões de brasileiros sofrendo com o Burnout. Pessoas que por fora sustentam um belo sorriso, mas por dentro sofrem caladas pela dificuldade de explicar uma dor que ninguém consegue ver.

Sinais Invisíveis e os Mantras Tóxicos do Mercado

Só porque uma dor não é visível aos olhos, não significa que ela não exista. Pense no vírus da Covid: você não o enxerga, mas respeita o seu poder destruidor. Com os sinais do corpo acontece o mesmo. Se você sai de casa, vê o tempo armando para chuva, sente o cheiro da água e o vento balançando as árvores, você não deixa a janela aberta dizendo “não vai chover”. Se deixar, vai encontrar a casa inundada. Com a saúde é igual: ou você ouve os sussurros do seu corpo, ou terá que lidar com os gritos de uma doença.

Infelizmente, somos bombardeados diariamente por mantras corporativos tóxicos que nos empurram para o abismo:

  • “Você sempre pode fazer mais com menos.”

  • “Supere os seus limites custe o que custar.”

  • “Tempo é dinheiro e dormir é perda de tempo.”

  • “Funcionário bom é aquele que veste a camisa em tempo integral.”

Sob o efeito dessas frases, perdemos a noção dos nossos limites, nos cobramos mais e nos negligenciamos por completo.

O Caminho Clássico da Produtividade Insustentável

Como saber se você entrou na rota da insustentabilidade? O processo costuma seguir passos muito claros e perigosos:

  1. A Nécessaire Cheia: O primeiro sinal é o aumento na quantidade de remédios, vitaminas e estimulantes. Há quem se vanglorie de ter uma farmácia na bolsa apenas para conseguir aguentar a rotina.

  2. A Queda das Horas de Sono: Você começa a abrir mão do descanso para esticar o dia de trabalho. Vale lembrar que quem dorme menos de 6 horas por noite tem quatro vezes mais chances de mortalidade e fica propenso a mais de 80 tipos de doenças.

  3. A Aceleração da Higiene Pessoal: Até o tempo do banho e o ato de escovar os dentes se tornam tarefas aceleradas, feitas sob pressa.

  4. Alimentação Degradada: Você passa a comer mal e rápido — muitas vezes digitando no computador, falando ao telefone e engolindo a comida ao mesmo tempo.

  5. Abandono do Lazer: Você cancela a atividade física, os momentos de lazer e os encontros com quem ama. Deixa de viver e passa apenas a trabalhar, até que o corpo trava e te força a parar involuntariamente.

Para tentar suportar esse excesso, é comum compensarmos o cansaço com comida, bebida ou outras válvulas de escape, descontando a insatisfação em quem está perto. A agressividade é um sintoma clássico. Lembro-me perfeitamente de quando meu marido me disse: “Isabela, o que está acontecendo? Você está muito agressiva”. Na defensiva, eu respondi que não estava. Mas, no fundo, eu estava exausta e com medo. Medo de parecer fraca, medo do julgamento alheio e medo de perder o emprego em um mercado com milhões de desempregados.

No entanto, aprendi que o medo nos torna reativos: com ele, nos cansamos mais e produzimos menos. Além disso, não há carreira, salário ou cargo que resista a um estilo de vida insano. Uma hora a conta chega. Buscar remédios ou anfetaminas para aguentar o presente não é resiliência, é apelação. É o equivalente a colocar pneus novos em um carro que está sem motor: ele não vai a lugar nenhum.

Como Virar a Chave: O Equilíbrio Dinâmico

A minha cura só começou quando mudei de postura e passei a me incluir na minha própria agenda. Comecei a bloquear horários específicos do dia exclusivamente para mim. Parece simples, mas na prática exige treino e persistência.

Compreendi que, para produzir de forma sustentável, precisamos atualizar a nossa identidade. Nós atualizamos nossos documentos e fotos quando mudamos, mas esquecemos de atualizar nossa mente. Nossas necessidades mudam, o mercado muda, e o avanço do Home Office e da tecnologia acabou borrando as fronteiras do tempo, fragmentando nossa rotina e sobrecarregando o nosso cérebro.

Para garantir a sua saúde mental, você precisa dar um refresh no sistema (um verdadeiro F5 na mente) e responder a quatro perguntas essenciais:

  • Quem é você hoje e, com a sua idade atual, do que você realmente precisa para viver bem?

  • Quantas horas de sono são necessárias para você render no dia seguinte sem precisar se entupir de café?

  • Quais são as suas habilidades e interesses no momento presente?

  • Com quem você está gastando o seu tempo? Essas pessoas e atividades fazem parte de quem você é hoje ou de quem você era ontem?

As respostas para essas perguntas vão te livrar dos ladrões de tempo e dos comportamentos tóxicos. Elas abrirão espaço na sua agenda não para trabalhar mais, mas para se cuidar.

O autocuidado é o único combustível sustentável capaz de manter o motor da vida funcionando. Você pode mudar de emprego, de chefe ou de carreira, mas se não fizer por si mesmo aquilo que só você pode fazer, ninguém fará. Muitas empresas já entenderam esse cenário e estão mudando suas dinâmicas, mas você não deve esperar a mudança vir de fora. Comece a mudança por dentro.

Vista a camisa da empresa, mas lembre-se de vestir também o seu pijama e a sua roupa de ginástica. Supere os seus limites, desde que haja descanso entre um esforço e outro. Se o ritmo for pesado durante um projeto especial, garanta que ele seja leve logo em seguida. Isso é produtividade sustentável: o caminho definitivo para você deixar de apenas sobreviver e passar, finalmente, a viver.