Para muita gente, é extremamente difícil admitir que o trabalho está prejudicando a saúde. O limite entre o esforço produtivo e o adoecimento emocional costuma ser sutil, mas os sinais no corpo e na mente são claros. 

A história de Bruna ilustra bem essa realidade. Após 10 anos atuando firmemente em instituições financeiras, ela se viu diagnosticada com síndrome do pânico e depressão. 

“Eu já acordava para ir trabalhar me sentindo muito mal, e as sensações só pioravam ao longo do dia. Não é fácil trabalhar com o braço e a boca formigando, ou com o coração completamente agitado”, relata Bruna. 

A cobrança excessiva por metas transformou a rotina dela em um processo de tortura. Afinal, psicologicamente esgotado, ninguém consegue entregar rendimento. O sofrimento transbordou o ambiente corporativo e passou a impactar sua casa e suas relações familiares. Para Bruna, a virada de chave exigiu a coragem de recomeçar do zero: ela abriu o próprio negócio e hoje trabalha para si mesma. 

Bruna conseguiu virar a página. Mas fica a grande questão: mudar radicalmente de carreira ou abrir uma empresa é a única saída? Sabendo que a maioria das pessoas não tem essa mesma oportunidade, o que precisa mudar na nossa relação com o trabalho? 

A busca por saúde existencial e o sentido da vida 

Ao contrário do que víamos há algumas décadas — quando a identidade e o sentido da vida de uma pessoa estavam atrelados quase que exclusivamente a ter um emprego fixo e um lugar ordenado na sociedade —, hoje vivemos um momento diferente. As pessoas estão buscando um sentido para a vida que vai muito além de desempenhar um papel social ou bater metas. 

O que gera o adoecimento e os transtornos mentais não é o trabalho em si, mas a dinâmica de trabalho e a impossibilidade de o colaborador se identificar com aquilo que faz. É preciso correlacionar a saúde mental com a saúde existencial. 

Romper com a empresa nem sempre é o único ou o melhor caminho. O grande desafio atual está em dialogar com o âmbito corporativo, principalmente com os gestores, para entender como acolher essas pessoas sem que elas precisem abandonar suas carreiras. 

O papel das empresas: Produtividade sem adoecimento 

Toda empresa precisa de produtividade e rendimento; isso é um fato. No entanto, colocar os colaboradores em uma situação de estresse crônico e pressão desmedida é uma estratégia que se volta contra a própria organização, resultando em um número alarmante de afastamentos médicos. 

O ambiente corporativo pode e deve se transformar em um local promotor de saúde mental. Embora a demanda por produzir “mais em menos tempo” seja forte, existem fatores protetores fundamentais que as empresas podem adotar: 

  • Autonomia: Conferir ao colaborador a possibilidade de decidir o que fazer, como fazer e quando fazer — não para todas as demandas, mas para tarefas possíveis. 
  • Suporte Social (O fator mais forte): Pesquisas realizadas com uma amostra representativa de 120 mil trabalhadores apontam que o suporte social é o escudo mais poderoso dentro de uma empresa. Ter entrosamento com chefes e colegas, ser acolhido em momentos de emergência e contar com uma rede de escuta ativa muda completamente o cenário. 

Humanização através da literatura: Uma ferramenta prática 

Uma das estratégias inovadoras e com mais de 20 anos de aplicação prática para construir essa rede de proteção é o uso da literatura clássica no ambiente corporativo, frequentemente estruturada em pequenos grupos conhecidos como Laboratórios de Leitura. 

Nessas dinâmicas — realizadas majoritariamente de forma voluntária —, os livros clássicos funcionam como um elemento detonador de reflexões, sentimentos e afetos. 

Por que os clássicos funcionam? 

Os clássicos são obras que a humanidade produziu ao longo do tempo e que cristalizaram os grandes dramas humanos. Ao ler e debater essas histórias, os trabalhadores desenvolvem: 

  • Maior conhecimento da própria condição humana e empatia; 
  • Coesão e espírito de equipe entre os colegas; 
  • Fortalecimento do suporte social mútuo. 

Investir em espaços de fala, escuta e conexão humana dentro das empresas não é apenas um ato de empatia: é a chave para prevenir o esgotamento e devolver às pessoas a dignidade e o sentido naquilo que realizam diariamente.