Não sei por que insisto tanto em te querer, dizia mentalmente na noite anterior.
Ela acorda antes do despertador.
Não por disciplina, mas porque a mente já está em pé há horas.
O quarto ainda escuro parece combinar com o humor do dia. Há um silêncio espesso, desses que não acalmam — apenas ecoam pensamentos que se repetem como um disco antigo riscado no mesmo ponto. Por que sempre assim?
Ela levanta, faz café forte, como se a intensidade pudesse compensar os vazios.
Relacionamentos nunca foram simples para ela.
Sempre intensos. Sempre confusos. Sempre cheios de promessas que chegavam embaladas e iam embora desembrulhadas às pressas.
Ela ama com pressa.
Com medo.
Com fome.
Existe uma carência que não pede licença. Ela se infiltra nas mensagens não respondidas, no celular checado a cada cinco minutos, no coração que dispara quando o outro se afasta um milímetro. Não é exatamente amor — é a urgência de não ser deixada.
Durante o dia, ela funciona.
Trabalha, responde, sorri quando esperado.
Mas por dentro, o pensamento roda em círculos: Será que falei demais? Será que fui pouco? Será que ele ainda pensa em mim?
Os pensamentos são repetitivos, insistentes, quase cruéis. Eles não gritam; sussurram. E por isso cansam mais.
No almoço, ela mal sente o gosto da comida. Lembra de um relacionamento antigo — ou talvez nem tão antigo assim. Sempre há alguém ocupando um espaço maior do que deveria. Ela sabe disso. Mas saber não basta para mudar.
Há dias em que a tristeza não vem em ondas, vem em goteira. Pingando devagar, o dia inteiro. Um cansaço que não se resolve com sono. Uma saudade que não tem endereço certo.
À tarde, enquanto o mundo segue seu ritmo automático, ela se pega lembrando de uma música antiga. Fagner. Deslizes.
Não exatamente a letra — mas o sentimento. Aquele de amar demais, errar tentando acertar, tropeçar no próprio coração.
Ela pensa em como sempre acaba se moldando para caber.
Diminuindo desejos.
Justificando ausências.
Confundindo intensidade com vínculo.
À noite, em casa, o ritual se repete. Banho demorado. Espelho evitado. A mente revisitando diálogos que já acabaram, ou que talvez nunca tenham começado de verdade. Ela se pergunta por que confunde cuidado com dependência, afeto com salvação.
Há uma tristeza bonita nela — dessas que não pedem piedade, apenas escuta. Uma mulher sensível demais para relações rasas, mas cansada demais para continuar se ferindo.
Antes de dormir, ela promete: da próxima vez, vou me escolher.
Nem sempre cumpre.
Mas a promessa, ainda assim, importa.
Porque, no fundo, ela não quer amores complicados. Quer descanso. Quer um amor que não a faça duvidar de si. Quer silêncio na mente, presença no corpo, e um coração que não precise implorar para ser amado.
E talvez — só talvez — reconhecer seus próprios deslizes seja o primeiro passo para sair desse ciclo.
Ela apaga a luz.
O pensamento ainda insiste.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela não se condena por sentir.
E isso… já é um começo.
Muitas vezes, nossa carência tem raiz no que a psicologia chama de Apego Ansioso. Pessoas com esse estilo de apego têm um “radar” hipervigilante para sinais de rejeição.
- O Gatilho: Qualquer silêncio do parceiro é interpretado como um abandono iminente.
- A Reação: Para aliviar a ansiedade, você busca proximidade (mensagens excessivas, cobranças, ou se moldar à vontade do outro), o que muitas vezes afasta a pessoa, criando o ciclo que você deseja evitar.
Para sair do transe da carência, é preciso racionalizar o que a emoção tenta romantizar. Fique atenta a estes comportamentos:
- Inconsistência: Num dia você é o mundo dele, no outro você é um incômodo.
- Migalhas (Breadcrumbing): Ele envia apenas o suficiente para manter você “na reserva”, mas nunca se compromete de fato.
- Gaslighting: Quando você tenta expressar sua carência e ele diz que você é “louca”, “intensa demais” ou que está “inventando problemas”.
Cuide se bem!